• Jefte Amorim

Parentalidade e Aprendizagem

Eu admiro os trabalhos do meu pai por um motivo bem simples: ele é doido igual a mim.


Admiro quem coloca o seu talento à disposição do mundo, a despeito dos desafios, e por isso brilho os olhos com seus trabalhos ainda mais.


Por seu incentivo, quantas vidas foram inspiradas? Quantos escritores nasceram? Quantos, antes com medo, publicaram? Quantos declamaram ou falaram publicamente?


Eu nem sei como contar. Mas em cada canto que chego, falam-me dele não por “méritos estilísticos”, mas por seu coração agitador de gente através da arte. E isso me inspira.


Aliás, isso me move. Desde que descobri “agitador de gente”, não quero mais outro crédito pra mim. E ver isso também em gente que amo é um afago.


Em tempos de sanhas cada vez mais elitistas e carentes de uma suposta pureza erudita ou estilística, ele é incapaz de dizer que é vergonhoso ao outro se dizer poeta sem este ou aquele atributo.


Pelo contrário. Vê nos atributos do outro um caminho para que comece, se afirme, siga - podendo, sim, se dizer poeta, embora o Esperantivo sempre negue para si o título (se chamando de aprendiz).


Quem mais você conhece que se dedica a publicar, todos os dias, poesia em suas redes? Quem mais cria um projeto (o Frut Cordel) que fala da flora nacional em poesia, e envia gratuitamente para o Brasil sementes de plantas, para que plantem em seus quintais?


Só mesmo um doido. Um doido desses bem doidos. Que amam o bem, a natureza e veem poesia nisso.


Só mesmo um doido. Desses que gosto de ser. E do jeito que sei que ele será lembrado.


Somos, nós mesmos, o nosso legado. E o que importa é a paixão no que fazemos, enquanto vivos, e o impacto que isso gera - em forma de vida - mesmo depois que estivermos mortos.


É disso que o Esperantivo - Casa, Comida e Cultura - espaço de circulação artística independente que criei junto com Andrea Trigueiro, minha esposa, que mantinha epxosição permanente da vida e obra do Poeta Esperantivo, meu pai - foi feito durante os 3 anos em que abriu as portas. Dessa substância. E é bom saber que algo assim só é possível porque existe essa loucura, esse afeto, essa poesia.


Só é possível porque, para eu vislumbrasse tudo isso, houve um pulso forte de minha mãe, com quem aprendi a não desistir; a vestir-me de trabalho e coragem para enfrentar o mundo.


É disso que o Esperantivo - o espaço, não o homem - foi feito. Disso e mais o desejo curioso pela alquimia da vida - surgido de uma cozinha.


É um sonho de gente doida, que ama, adotado com divina paixão por Andrea (a alma por trás de todas as cores da casa) e acolhido por João, meu enteado (mesmo que pra ele, às vezes, um tanto a contragosto, rs).


O sonho de que saibam da história de uma Vila com memórias do Século XVI e onde morou a primeira mulher do Brasil - quiçá do mundo - a operar um farol. Onde Pinzón aportou antes de Cabral chegar à Bahia.


O sonho de uma juventude cabense com autoestima, que não precise mais sonhar ser a capital, mas que se deleite na vida de sua própria cidade.


No fim, só quero que muita gente possa sentir essa energia, se embriagar desse sonho e seguir - para deixar o seu próprio legado para mais um quinhão do mundo.


E saber que, por menor que seja, grandes sementes foram deixadas - em corações maiores ainda.


Parentalidade, pra mim, é sobre isso: sobre as aprendizagens que tecemos no mundo e deixamos como legado sem que percebamos, mas que impregna tudo com esse afeto fincado nas memórias...


Jefte Amorim

Professor, jornalista e mestre em Desenvolvimento Local. CEO da Dialógica Comunicação Estratégica, tutor do Laboratório de Comunicação da Faculdade Pernambucana de Saúde (FPS) e professor da especialização em Jornalismo Independente e do MBA em Marketing Digital da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap). Expert em Storytelling para Vida e Negócios e professor da Escola Humana.


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