Você não faz ideia do impacto que gera (sobre histórias e nosso legado humano e profissional)

Não fazemos ideia do quanto - nem por quanto tempo - impactamos a vida das pessoas com quem lidamos. Especialmente porque, em muitos casos, nossas história contadas - aquelas palavras ou gestos - reverberam como incubação de um sentir que só encontra solo fértil num futuro.


Ou simplesmente muito desse impacto carece de instrumentos de medida - ou de ferramentas de significação - que aquelas pessoas impactadas só encontram noutro tempo, adiante, quando olham para si em retrospecto, no retrovisor de suas vidas. Sobre o processamento das histórias, inclusive, escrevi em um Guia aqui para Escola Humana.


Mais ainda: não sabemos como dar feedbacks e mal aprendemos a agradecer, fazendo com que, como na parábola dos dez leprosos, apenas um décimo - quando isso - retorne para nos dizer desse impacto que nossa história lhe causou.


O fato é que há no contas histórias uma mística - ainda não plenamente decifrada em ciência - que vai muito além dos momentos em que estamos frente a frente.


Há uma mística (e falo não num sentido religioso, mas num sentido de conexão não desvendada) na extensão do impacto que deixamos. E ele reverbera como ondas, que se amplificam quando o outro se conecta à frequência de sentido daquela história que deixamos (contando com palavras ou com gestos).


Nosso impacto está além do que vemos. Afinal, os encontros não são uma soma, mas uma exponenciação das características daqueles que se encontram, o que resulta sempre em algo novo (algo que aprendi primeiro de Pedro Jofilsan, amigo e consultor de negócios, expert em Gestão de Conflitos que atuou em tensões agrárias e fundiárias).


É por isso que, 10 anos depois, algo que um dia dissemos - e já nem lembramos - é-nos dito com veemência por alguém que reencontramos; que, passado quase 1 ano sem aulas, recebemos boas notícias com gratidão. Mesmo aquilo que fazemos de forma fortuita ou banal tem impacto que excede nossa capacidade de perceber. Afinal de contas, parte da clareza que a maturidade nos traz é entender que aquilo que chamamos de incrível é somente a sobreposição de eventos banais lidos sob o filtro de uma história.


Quem diria que, quando eu era um adolescente, em certos aspectos perdido de mim, trocar comentários despretensiosos com Hermano Vianna no velho Overmundo (primeira plataforma digital de jornalismo colaborativo do Brasil) exerceria tanto impacto sobre o que fiz - e pensei - depois?


Quanto Pedro Jofilsan sabia que, em conversas tão comuns, no IADH (Instituto de Assessoria para o Desenvolvimento Humano, local do meu primeiro estágio em Comunicação), em suas oficinas ou com um café em sua casa, estaria moldando parte de como vejo o mundo?


Garanto que meu avô Jessé não imaginava o impacto de seu saber partilhado aos meus ouvidos; que minha vó Erol jamais saberia o que me dar Os Miseráveis (o livro, de Victor Hugo, na versão infantojuvenil de Walcyr Carrasco) faria comigo. Meu avô Mário, por certo, não tinha a dimensão do quanto ainda reverbera em mim o episódio de quando o conheci: entregou-me uma cédula (recém-lançada) de R$ 2, depois me pediu de volta e me questionou por que o entreguei. "Se eu lhe dei é sua; nunca deixe ninguém tomar o que é seu", me deixou.


Mas esses impactos não se dão apenas na dimensão humana. Escrevo hoje aqui, na Palavra Humana, porque estive em uma vivência de Flávio Oliveira, também professor da Escola, em que Gabriela Evangelista, fundadora deste espaço, esteve. Em duas rodadas de 10 minutos estivemos no mesmo grupo e contamos nossas histórias. O resultado? Tantas convergências profissionais que hoje estamos juntos nesse projeto.


E, quem diria, sabe o Flávio? Conheci-o anos antes, enquanto tinha uma agência de Marketing e ele havia comprado um curso de um antigo cliente meu. Mas só nos aproximamos pelas histórias: ele tinha algo que eu buscava, e vice-versa. Nossas histórias permitiram nossa conexão. São as histórias que estão por trás do "fit" ou do "match cultural" tão falado, de modo emergente, nas empresas.


Não pára por aí. Não compramos produtos ou serviços: compramos histórias; engajamos times muito mais quando contamos uma história sobre os motivos e objetivos de uma ação; somos fruto não do que vivemos, mas das histórias que contamos sobre o que acontece. São três afirmações fortes, mas desenvolvo melhor essas ideias na Live "Os Dispostos se Atraem", que fiz aqui na Escola Humana.


É por isso que, sempre, é preciso cuidado com as histórias que legamos ao outro nos encontros. Se genuinamente nos importamos com esse outro, com nosso legado profissional e com o bem comum, o esmero com a dimensão desse impacto será sempre um imperativo ético.


E sabe o que é melhor? Nos dias tristes, a centelha daquele décimo que volta para agradecer - e expressar-nos esse impacto - será sempre o renovo de que é preciso para sorrir e sentir que - ainda - vale a pena.


Jefte Amorim

Professor, jornalista e mestre em Desenvolvimento Local. CEO da Dialógica Comunicação Estratégica, tutor do Laboratório de Comunicação da Faculdade Pernambucana de Saúde (FPS) e professor da especialização em Jornalismo Independente e do MBA em Marketing Digital da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap). Expert em Storytelling para Vida e Negócios e professor da Escola Humana.


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