• Jefte Amorim

Eu tenho medo. E você?

Celebrar suas conquistas - todas elas, inclusive as que você considera pequenas - é importante. O espumante, como festejo, quando possível, também.


Mas sabe o que realmente faz a diferença?


Contar a história por trás do brinde e da taça. Não só quando a história é passado, mas especialmente enquanto se percorre o caminho.


Afinal, como nos mostra a Neurociência, quando olharmos as vivências no retrovisor já não teremos tanta clareza dos detalhes - e são eles, às vezes, o ponto de inflexão.


Em um mundo permeado por imagens felizes e festivas, por vezes criamos a falsa ilusão de que o mundo vai bem, sem problemas, e parece que apenas nós vivemos a densidade do desconforto emocional e dos baques na saúde mental.


Mas heróis e heroínas, assim como super homens e super mulheres, são apenas uma projeção mágica que fazemos - e que existe apenas nos quadrinhos, filmes e afins.


A realidade é que estamos na pior crise sanitária do século, em uma gestão pública anticientífica, ideologizada e apontada como a pior no lidar com a pandemia no mundo ocidental.


São 19 milhões de pessoas com fome (o dobro do medido em 2009), quase metade do País em insegurança alimentar. A Educação em transformação, negócios fechando e uma parcela gigante da sociedade começando a perceber os impactos do Digital.


Tudo isso, somado, às vezes pesa. Você não está só.


Isso, é claro, não significa que devamos nos entregar a essa sensação ruim. No entanto, é importante lembrar que ela existe para nos lembrar de que é preciso continuar em movimento, de que precisamos dialogar com nossos medos, inseguranças, sensações de insucesso para seguir adiante ao caminho que nos faz sentido e nos preenche de Flow (aquele pico de propósito e paixão que nos motiva plenamente).


Eu, por exemplo, tive - pela primeira vez - uma crise de ansiedade. Bem no meio deste ano pandêmico de 2021. Minha resposta foi reservar tempo para mim, descansar e conversar com essa sensação: o que ela quer me dizer sobre mim?


Depois de alguns diálogos internos, percebi: está na hora de migrar parte da minha carreira; quero seguir em novos campos que me fazem feliz. E você deve ponderar: em todo esse contexto, há momento mais difícil para mudar um posicionamento de carreira?


Para mim, que durante alguns anos funcionei com a Dialógica Comunicação Estratégica como agência, a alta da demanda no Marketing Digital nestes tempos certamente é uma oportunidade (há muitos negócios desejando um agente operacional de sua presença online).


Mas sabe o que eu descobri, desde quando deixei de ser agência para focar em Educação e Consultoria em 2019?


Eu já não tenho mais interesse nisso.


Meu interesse maior, hoje, são as pessoas. E em um nível mais profundo.


Em 6 anos no Ensino Superior, sempre fui guiado por uma convicção: mais do que entregar saber técnico, preciso cuidar para que essa experiência ajude estudantes a serem humanos melhores. Afinal, o mundo foi estruturado para formar técnicos; não faltarão oportunidades de revisão dessa camada. Mas se eu deixar passar a chance de reflexão sobre a dimensão humana desse saber, qual a probabilidade de haver espaço assim depois?


Cerca de 75% das pessoas que pedem demissão o fazem por causa de seus chefes, e isso escancara a nossa inabilidade socioemocional no mundo do trabalho - mas não só nele. Em uma realidade hiperconectada ao digital, a pandemia também nos trouxe como urgente a necessidade de formação em outra camada: as soft skills.


Harvard Business Review, MIT Sloan Review, PNUD… Onde quer que você vá, Soft Skills é um termo em alta. Especialmente pela descoberta, pelo mercado, do quanto elas impactam em eficiência e produtividade. Mais do que isso: são as habilidades socioemocionais que nos diferenciam das máquinas. Afinal, em um mundo de automação, toda técnica parametrizável é automatizável e, portanto, substituível por robô.


Mas, honestamente, pra mim, o buraco é mais embaixo.


Não temos Educação Emocional. Não sabemos sobre Gestão de Conflitos. Estamos distantes do autoconhecimento. E há um agravante: vivemos em uma dinâmica social em que pais trabalham e crianças têm pouco tempo de aprendizagem dos afetos e das histórias de sua família e do seu território.


Todo esse acúmulo mexe conosco. E, embora tenha seus méritos, não é o setembro amarelo que vai nos sanar essa lacuna se não miramos as cores do mês nas outras datas do calendário.


Pra mim, que aprendi das histórias, é um incômodo. Como alguém ávido por facilitar o Desenvolvimento Humano, que viveu suas pequenas tragédias (como qualquer pessoa) e se viu resgatado pelas pessoas que encontrou, é um desafio e missão. E o Marketing não dá conta disso da maneira como desejo.


Não há momento mais difícil para transições. Mas é nelas que estou seguindo. E a bagagem que reuni até aqui não fica para trás: são os saberes da Comunicação, do Marketing, da Inteligência de Negócios que pavimentam essa estrada e me permitem estar aqui. No entanto, esses saberes agora já não são mais fim, são meio para que eu atravesse a ponte para os novos lugares que quero trilhar.


Graças a esse movimento - e a contar as histórias desse meu momento - encontrei a Escola Humana há alguns meses, um projeto que converge com meu desejo de estar em “uma escola que nos ensine a ser gente” (pra que sejamos humanos melhores, produtivamente saudáveis).


Falar sobre o Poder das Histórias, sobre Vida, Carreira e Negócios é fruto disso. Daquilo que vivi. Daquilo que tenho vivido. Daquilo que eu quero viver. E faço isso não porque estou em um pedestal e sei tudo sobre essas trilhas, mas porque acumulei histórias e tenho aprendido do caminho.


É isso, aliás, pra mim, que diferencia professores de gurus: a capacidade de apontar não O CAMINHO, mas NO CAMINHO.


Pedestais são prisões e nunca gostei de ídolos. Conto minha história não por ser um modelo, mas por entender que, sabendo do poder do Storytelling, a minha trajetória não fará sentido a todo mundo, mas será o combustível necessário para quem se conecta com ela significar sua própria jornada e ir adiante.


O meu fazer não é para quem deseja alguém a quem seguir, mas para quem busca companhia para estar ao lado. É esse o meu jogo, o da partilha e conexão, desvendando o poder produtivo da cooperação - dentro e fora das organizações.


Estou em transição em algumas áreas da vida. Abri mão de trabalhos seguros e mais rentáveis (e que são de alta demanda neste tempo em que vivemos). E tenho medo, é claro. Mas aprendi que coragem é seguir mesmo com medo, angariando boas companhias como suporte e estudando mapas da trilha para construir o novo.


É essa a grande lição: diante do medo, é fundamental mirar o que te move, em teus propósitos, e garantir que estejas ao redor de gente alinhada com eles e que te promova uma ambiência emocionalmente segura.


Mesmo com medo, eu vou. E você?


Jefte Amorim


Professor, jornalista e mestre em Desenvolvimento Local. CEO da Dialógica Comunicação Estratégica, tutor do Laboratório de Comunicação da Faculdade Pernambucana de Saúde (FPS) e professor da especialização em Jornalismo Independente e do MBA em Marketing Digital da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap). Expert em Storytelling para Vida e Negócios e professor da Escola Humana.


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