• Patrícia Napolitano

Cuidar e Criar

Atualizado: 12 de mai.


Gente, eu ia fazer só uma confissão, mas desconfio que ela se torne uma bela reflexão.

Nas últimas reuniões que fiz com o pessoal da Escola Humana, como já somos da casa e acolhemos a humanidade como premissa básica de trabalho, me permiti estar em movimento durante os encontros e estive quase sempre com as mãos ocupadas enquanto conversava.


Primeiro, cortando cebolas, desde a cozinha, levei uma reunião com a Gabi, diretora da Escola. Foi tão natural pra mim, que demorou bastante para chegar aquela voz questionadora sobre se uma postura assim poderia refletir qualquer falta de profissionalismo ou uma possível inadequação.


Essa voz também já apareceu para você em tempos de longa pandemia e Home office?

Pois vou contar sobre esse dia para essa voz, porque ela está lá para cuidar da gente, nos proteger, mas precisa se atualizar também, para não acabar se tornando limitação desnecessária ou até sabotadora do processo de criar.


Para minha surpresa, a Gabi, que faz maravilhas na cozinha, não se sentiu menos atendida por eu estar me ocupando com as panelas enquanto conversávamos. Muito pelo contrário. Aquela cena que estava sendo ofertada a ela entre tábuas, facas e temperos representavam uma de suas atmosferas criativas favoritas. Ela se sentiu acolhida e contemplada, dentro da minha cozinha e falamos sobre processo criativo a partir do coração aquecido e com as paixões acesas.


Do lado de cá da telinha, minha situação culinária fazia bem parte do processo criativo de um projeto. Eu, brasileira, recém imigrada para a Alemanha, receberia naquele dia uma potencial parceira para um Workshop, que queria oferecer aqui em Stuttgart. Haveria nas horas seguintes, por coincidência, uma outra Gabi para provar minha comida e minhas propostas (assim também se chama, a parceira, que acabou aceitando meu convite para minha alegria).


Outro dia, arrumando os brinquedos das minhas filhas, a partir de um quarto de ponta cabeça, ouvi também, num call com toda a equipe, sobre as atualizações da Escola, novos processos para divulgação, núcleos de trabalho e o site reformulado (escolahumana.com Vale a pena espiar! Adorei os artigos sobre Criatividade dos colegas colaborando com o tema).


Dessa vez, eu estava um pouco mais descabelada do que no call a partir da cozinha.

Me dei conta de que padeço de um mal bastante comum, que gira em torno de uma das crenças limitantes sobre Criatividade. Aquela que coloca em destaque e cola glamour ao aparecimento do novo e não dá valor à sustentação e aos cuidados com aquilo que já brotou. Tarefas como arrumar, limpar, lavar, não são vistas como muito atrativas para quem tem sede do novo. Afinal, elas não parecem estar ligadas à inovação em si. Quando essas tarefas te impedem de participar de um trabalho que te faz pulsar então, tornam-se pesados obstáculos.


Mas aí entra uma segunda reflexão sobre Criar. Por mais doloroso que seja esse mexer e ordenar as estruturas atuais, esse movimento mostra-se essencial para a liberação da energia que a criatividade demanda para inovar. Se a gente não tem pique para reformular os processos e a comunicação, revisar e confirmar o que tem significado, descartar o que é irrelevante, adicionar aquilo que se revelou importante, ficamos com o caminho bloqueado. Seria como olhar através de uma janela suja. Podemos até visualizar o novo, mas nossa experiência estará aquém da grandeza que o novo quer revelar.


Dentro do processo individual, essa ordem se faz através do autoconhecimento.

Dentro do processo grupal, também a contribuição de cada integrante de uma equipe com sua consciência de si expandida, faz uma enorme diferença. E o grupo, visto com um ser grupal, também tem suas necessidades de cuidado.


Assim, aquilo que eu tendia a olhar apenas como atenção pobre devido ao tempo limitado, esticou seu espectro na minha percepção do caminho para criar. Porque, afinal de contas, você e eu sabemos que, se esperarmos as condições perfeitas de temperatura e pressão, a lua propícia e a conjunção estelar impecável para iniciar os projetos que imploram para nascer através de nós, é pouco provável que consigamos surfar a onda perfeita e é possível que dê vontade de ir a banheiro bem nessa hora.


Sim, atenção é um treino desafiador e sentar e olhar nos olhos de alguém, mesmo que pela tela, é uma condição especial, principalmente quando se trata de ofertar uma escuta ativa, empatia e acolhimento. E é motivada pela mesma necessidade de cuidado com as pessoas e a vida, que abro a possibilidade de trazer esses movimentos das mãos para as conversas que o permitem. Abre-se espaço, por exemplo, para um pós reunião focado em implementar as ações combinadas, ao invés de dispersar-se, indo cuidar do almoço em cima da hora, porque a reunião se estendeu.


O cuidado é uma premissa para o estado criativo. É a partir da nossa saúde, com o neocórtex bem regado de oxigênio, sem o stress ameaçador e em estado de segurança, que podemos nos conectar com o novo em seu sentido mais elevado. Cuide-se para criar!


Patricia Napolitano

Comunicóloga, Especializada em Administração de Empresas

Focalizadora de Processos Criativos Pessoais e Grupais através da Psicossíntese.

Atelierista de Voz, Cantora e Doula da Expressão Artística. Professora da Escola Humana de Vida e Negócios.